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A Fundação Oncocentro de São Paulo concentra e analisa as informações sobre a doença no estado. A partir desses dados, é possível formular políticas públicas de controle da doença e assistência do paciente com câncer.

*por Carina Eguía e Felipe Godoy

Categórico e veemente. Assim é o médico epidemiologista José Eluf Neto, presidente da Fundação Oncocentro de São Paulo (FOSP) e professor de epidemiologia da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (FMUSP), ao defender o papel da entidade, e os valores agregados do estudo epidemiológico do câncer, na definição de estratégias e políticas públicas para o controle da doença.

Fundada em 1967, como Centro de Oncologia (CEON), por um grupo de professores da FMUSP, o objetivo principal da entidade era de incentivar e coordenar o estudo de atividadesem câncer. Seteanos mais tarde, a Lei Estadual nº 195 transformava o CEONem Fundação Centrode Pesquisaem Oncologia. Comisto, a entidade agrega à seus objetivos precípuos o incentivo à pesquisa, enssino e assistência, concentrando, ainda, o estímulo de atividades de prevenção e detecção precoce da doença. Hoje, a Fundação Oncocentro de São Paulo é responsável, entre outras funçãões, por gerar dados epidemiológicos do câncer referentes ao Estado de São Paulo, promover a formação de cancerologistas e o treinamento de técnicos especializados, desenvolver pesquisas e métodos de prevenção, diagnóstico e tratamento do câncer.

SP Câncer – O sr. Assumiu a presidência da Fundação Oncocentro em março de 2011. Como foi receber o convite para atuar nesta respeitada instituição ?

JEN – Receber o convite para presidir a Fundação, me deixou temeroso. Até aquele momento eu não havia acumulado experiência no Sistema Público, além de ter trabalhado em um centro de saúde ligado à Faculdade de Medicina. Mas, ao considerar que a epidemiologia é uma ferramenta fundamental para o controle do câncer, e tendo consciência de que essa é a minha especialidade, entendi que eu poderia contribuir de alguma maneira para o desenvolvimento da FOSP.

O interessante é que, ao analisarmos a história da entidade, podemos notar que ela teve seu início na FMUSP, como CEON, já manifestando, desde o primeiro momento a preocupação em atuar diretamente na prevenção e detecção precoce do câncer, principalmente do câncer ginecológico e de mama. Na área da assistência, o início da entidade foi marcado pela produção de próteses buço-maxilares. A preocupação com o registro epidemiológico da doença surgiu mais tarde, mas não tenho dúvida de que este seja, atualmente, o principal papel da entidade.

SP Câncer – Entre o registro de câncer, a formação de profissionais e a assistência, como está a atuação da FOSP atualmente?

JEN – Hoje a FOSP conta com três diretorias adjuntas, a de Informação e Epidemiologia; a de Reabilitação; e a de Laboratório e Anatomia Patológica. A primeira delas é a responsável por realizar o registro estadual de câncer. A área analisa dados de todos os hospitais públicos e de alguns hospitais privados de São Paulo, gerando informações capazes de auxiliar o Governo do Estado no desenvolvimento de políticas públicas para controle da doença. Agora, queremos estabelecer uma parceria para realização de uma pesquisa que permita averiguar como está a mortalidade por câncer. Estes novos dados ajudarão a incrementar as análises, fornecendo uma visão ainda mais completa sobre a situação da doença no estado.

A segunda diretoria concentra a atividade de assistência. Acredito que o atendimento realizado ali à população é uma questão de cidadania. Quando as próteses ficam prontas, os pacientes se emocionam muito, porque isso representa a chave para que ele possa retornar ao convívio social. Justamente pelos benefícios sociais acumulados por este nicho de atuação da entidade – e por ser considerada uma das melhores instituições na produção de próteses – acredito que, a médio ou longo prazo, a área deverá se desvincular da Fundação, dando passos mais largos no desenvolvimento de suas atividades.

Por fim, a diretoria-adjunta de Laboratório e Anatomia Patológica concentra a maior parte dos 105 profissionais da Fundação. Temos o orgulho de manter o melhor centro de formação de citotécnicos do país. É preciso um ano e meio para formar um bom profissional. O setor realiza análises de papanicolau, anatomo-patológicos e imuno-histoquímicos, sendo, este último um exame sofisticado, que demanda maior expertise dos profissionais. Além disso, este exame tem sido ferramenta chave para a decisão de terapêuticas. Assim, a tendência, em termos de futuro, é diminuir, na FOSP, o volume de análises de papanicolau ou anatomo-patológicos, que podem ser feitos por máquinas, e ampliar o volume de exames imuno-histoquímicos.

SP Câncer – Como está, de maneira geral, o cenário atual do câncer no Estado de São Paulo?

JEN – Um artigo publicado pela FOSP recentemente dá conta de que a mortalidade por câncer, ajustada por idade, tem diminuído de maneira geral. Nos países desenvolvidos este é um cenário que começou a se delinear há 10 anos.

Uma das principais razões para isso é a queda de mortalidade da doença no sistema gastro-digestivo, um tipo de câncer causado, principalmente, pelas condições de vida do indivíduo. Outro tipo da doença que tem apresentado queda é a de colo de útero.

Também analisamos que o de pulmão tem começado a cair, principalmente em homens, assim como de tumores que afetam a região da cabeça e do pescoço. Isso pode estar relacionado com a redução do hábito do tabagismo e do etilismo na população. Com os avanços no tratamento, também é possível notar a queda nas mortes infantis provocadas por leucemia linfóide aguda.

SP Câncer – Se os dados de incidência têm aumentado e a mortalidade reduzido, isso significa que é possível conviver com o câncer, como doença crônica. Mas é possível conviver com a doença mantendo a qualidade de vida?

JEN – O consumo de cigarro e álcool são os principais vilões quando se discute a prevenção da doença. Além disso, é preciso estimular ainda mais a população a manter hábitos de vida saudáveis, como alimentação adequada, prática de exercícios físicos e a manutenção de cuidados gerais com a saúde.

De fato, houve um avanço muito grande no tratamento do câncer no Brasil. Hoje é perfeitamente possível conviver com a doença desfrutando de qualidade de vida, assim como portadores de inúmeras outras doenças crônicas o fazem. Nesse sentido, cabe destacar, ainda, a evolução dos cuidados paliativos no país. O que queremos, agora, é desenvolver um indicador que se torne uma ferramenta capaz de avaliar a qualidade de vida do paciente em cuidados paliativos.Esta, aliás, é uma das preocupações do Comitê de Referência em Oncologia, presidido pelo Instituto do Câncer do Estado de São Paulo (Icesp) e do qual a FOSP faz parte.

SP Câncer – O sr. acredita que, ao personalidades assumirem publicamente o câncer, podem estar contribuindo no sentido de disseminar informação sobre prevenção e detecção precoce?

JEN – Eu acredito que a exposição desses casos para o público pode contribuir de uma maneira positiva, sim. Em primeiro lugar, porque esta atitude ajuda a desmistificar um pouco o problema. Em segundo lugar, porque estimula a discussão sobre a doença e leva à população uma consciência maior sobre a importância da prevenção primária e da detecção precoce da doença. Além disso, eu sou otimista. O Brasil tem melhorado em vários aspectos. Um deles é a produção científica, que cresceu significativamente em termos de quantidade e qualidade. As pessoas começam a entender que câncer não é sinônimo de morte; e que é possível conviver com a doença.

Na internação, um grupo de palhaços torna a estada no hospital mais humana.

por Carina Eguía

 

Eles chegam em duplas ou trios. Conversam com enfermeiros, técnicos de enfermagem, médicos, equipe da limpeza e quem mais estiver passando. Entram nos quartos e brincam, na busca por levar um pouco mais de diversão e alegria para os pacientes que se encontram internados. Ao contrário do que possa parecer, a cena não se passa em um hospital infantil. Ela se desenvolve no Instituto do Câncer do Estado de São Paulo (Icesp), centro de alta complexidade para tratamento da doença em pessoas adultas.

Os palhaços invadem as unidades de internação, à noite, três vezes por semana. Integrantes de um grupo chamado Mad Alegria, são, basicamente, alunos de segundo ano dos cursos de Medicina, Fisioterapia, Terapia Ocupacional e Fonoaudiologia da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (FMUSP). O objetivo da ação é trazer um pouco mais do bem-estar desfrutado em casa para o ambiente hospitalar, acolhendo e abrindo espaço para o conforto físico e emocional em um momento crítico provocado pelo processo de adoecimento. “É nesse clima de fantasia e de imaginação que perpassam todos os medos, as angústias e os desejos”, avalia a coordenadora de Humanização do Icesp, Maria Helena da Cruz Sponton. “Por isso é tão importante o desenvolvimento de ações que ajudem os pacientes, adultos ou crianças, a expressar seus sentimentos”.

O grupo surgiu por interesse dos próprios alunos, sendo, em grande parte, estruturado por eles mesmos. O projeto ganhou dimensão e se transformou em curso de extensão, sob o comando da professora Maria Aparecida Basile, responsável pelo Departamento de Moléstias Infecciosas e Parasitárias. Ao todo, 38 alunos – dos quais dois eram profissionais do ICESP, Jussara Alves Ribeiro, concierge do Serviço de Hotelaria e Hospitalidade do ICESP e André Migotto, psicólogo – foram os responsáveis por desenvolver, estruturar e colocar o projeto em prática. Assim, formataram os detalhes, desde a definição de visão, missão e valores, à consolidação do Estatuto Social, formação de parcerias e contratação de professor para as técnicas de claun.

Com isso, tiveram a oportunidade de receber, paralelamente à grade regular se seus cursos, uma formação mais humanista. “Uma das questões mais importantes, quando falamos do Mad Alegria, está relacionada ao desenvolvimento profissional inovador proporcionado aos jovens da área da saúde”, avalia Maria Helena. “Desde cedo, os futuros profissionais têm a oportunidade de adquirir uma nova visão sobre como realizar o atendimento. Isso os torna mais sensíveis para acolher, escutar e entender as necessidades emocionais e psíquicas, além das físicas”.

Na opinião da coordenadora de Humanização do ICESP e da professora Maria Aparecida Basile, a formação como claun concedeu aos jovens profissionais uma nova gama de ferramentas para a criação de um vínculo mais forte com os pacientes, alcançando melhores resultados terapêuticos. Dessa forma, o projeto contribui de maneira significativa na formação de profissionais com a capacidade de entender as necessidades daqueles que estão tratando, de devolver-lhe a saúde, aliando a isso uma avaliação mais holística de cada indivíduo.

De acordo com Basile, desde a criação do Patch Adams, nos Estados Unidos, e, mais recentemente, dos Doutores da Alegria, no Brasil, busca-se a humanização da assistência em saúde, promovendo uma aproximação entre profissionais e pacientes. “É interessante ressaltar que o palhaço não é o único modo de se desenvolver um trabalho como este. Qualquer atividade cultural, como música, contação de histórias ou trabalhos artesanais, que ajude a relaxar e tirar o foco do ambiente hospitalar é benéfico”.

A importância do estreitamento do vínculo entre profissionais da saúde e pacientes, humanizando as relações, também se destaca como fator de grande relevância para os alunos que participaram do curso de extensão. “Ao trabalhar nossa formação dessa maneira, somos transformados em outro tipo de profissional. Cada um de nós será capaz de estabelecer uma relação horizontalizada com as pessoas que estivermos tratando”, afirma a aluna do segundo ano de Terapia Ocupacional, Amanda Manso. “É isso o que buscamos: ver as pessoas de uma forma diferente, integral”, explica.

Professores e profissionais concordam que este tipo de experiência desperta a sensibilidade do profissional de saúde. “Passamos a enxergar de outra forma como a doença afeta a vida não só do paciente, mas da família inteira. E eles também, quando nos veem vestidos de palhaços não nos enxergam em uma posição superior. Por isso é possível estreitar os vínculos”, explica Aline Jimi Myung Cho, aluna do curso de medicina.

Profissionais experientes também encontram na atividade uma forma de resgatar o bem-estar, a autonomia e a autoestima. André Migotto, psicólogo do ICESP que participou do curso, acredita que, assim, é possível trazer um pouquinho do bem-estar e da alegria de casa para o hospital. “O ambiente fica mais leve porque há espaço para a descontração e a diversão, ainda que em momento de crise”, avalia.

Para Aline, a atuação do palhaço com o paciente promove uma mudança instantânea no local. “Quando entramos no leito e o paciente ou o acompanhante estão meio prostrados, com uma conversa simples, às vezes umas brincadeiras, o clima muda completamente. Isso é muito gratificante”.

Educar Para Prevenir

Educação: da antiguidade ao mundo contemporâneo não se descobriu outra solução para melhorar o mundo.

Por Carina Eguia

Embora a discussão a respeito de como transformar o mundo não seja recente, permanece bastante atual. Independentemente da corrente político-ideológica adotada por qualquer indivíduo que se proponha refletir sobre o assunto, a questão da educação sempre será um dos pilares de qualquer argumentação.

Neste sentido vale lembrar que, desde a antiguidade, os principais filósofos discutem a importância do conhecimento – um valor, hoje, intimamente ligado à educação, ou à instrução – como instrumento preponderante para que se pudesse compreender e transformar o mundo. Esta questão foi abordada, por exemplo, por Platão ao longo de toda a corrente de pensamento adotada pelo filósofo. Em “Alegoria da Caverna”, por exemplo, defende-se o caminho da educação, em que o âmbito das ideias se relaciona com os conceitos científicos, assim como, no mundo dos sentidos, os objetos se relacionam com a imagem que produzem.

Foi da busca pela associação da realidade vivenciada pelos jovens, aos conhecimentos tácitos e explícitos de que eles já dispunham – e aliando-os às informações fidedignas sobre prevenção do câncer – que surgiu o projeto Educar é Prevenir. Desenvolvido pelo Instituto do Câncer do Estado de São Paulo (Icesp), em parceria com as Secretarias de Estado da Saúde e da Educação, a iniciativa foi pensada para instruir e promover a reflexão dos estudantes a respeito de como evitar a doença, que se configura como a segunda causa de morte por enfermidade no país – a primeira, são as doenças cardiovasculares.

“O câncer que se torna visível em um indivíduo aos 50 anos começou a se formar, no mínimo, 20 anos antes. O processo de mutação das células que desencadeia o surgimento da doença é bastante longo. Assim, a adoção de hábitos de vida saudáveis desde a juventude é fator determinante na prevenção primária da doença”, alerta o diretor geral do Icesp, Paulo Hoff.

Com a ação, lançada em 24 de novembro – às vésperas do Dia Nacional de Combate ao Câncer, comemorado em três dias mais tarde – o Governo do Estado deu aos adolescentes do ensino médio um alerta: ter uma velhice saudável e produtiva depende das escolhas que forem feitas agora. Para que a prática alcançasse os efeitos desejados, ou seja, fosse capaz de transferir à comunidade jovem uma parte do conhecimento acumulado pelos profissionais do Instituto, o Icesp deslocou, simultaneamente, 80 médicos a 80 escolas estaduais da Capital, a fim de proferir uma série de palestras aos alunos do Ensino Médio.

Com a ação, 24 mil estudantes receberam orientações diretas sobre a importância da prevenção. Mas os jovens do interior e das escolas da Capital que não receberam a visita presencial dos profissionais da saúde também tiveram acesso às importantes informações transmitidas. Todos os adolescentes do ensino médio receberam a cartilha “Câncer: é possível prevenir” – foram impressos 1,5 milhão de exemplares, distribuídos nas escolas estaduais. A interação, nestes casos, também não ficou de fora. Em um vídeo, a equipe do Icesp responde dúvidas sobre a doença apresentadas pelos alunos.

“Esse projeto, além de grandioso, é fundamental para alertamos nossos alunos sobre o câncer, mostrando que é possível sim evitar a doença, com conscientização sobre hábitos saudáveis como não fumar, manter alimentação balanceada e realizar exames preventivos indicados em cada faixa etária”, afirma Giovanni Guido Cerri, secretário de Estado da Saúde.

Sensibilizar para transformar

O aumento significativo do volume de casos de câncer ao longo das últimas décadas está associado, principalmente à ampliação da expectativa de vida e à interferência de fatores externos, como a exposição a substâncias carcinógenas – aquelas capazes de provocar uma mutação celular que levará ao desenvolvimento da doença. Estima-se que cerca de 70% dos cânceres são determinados por fatores externos intimamente ligados ao ambiente e ao estilo de vida das populações.

Diante disso, a promoção da saúde e o diagnóstico precoce são armas poderosas que podem contribuir com o controle do número de casos de câncer. Assim, a educação em saúde, como processo orientado para a utilização de estratégias que ajudem o indivíduo a adotar ou modificar condutas que permitam um estado saudável, é fundamental.

A concepção desta teoria deve pressupor uma educação para a vida, caracterizada por uma prática que permite a interação dos saberes, reflexões e expectativas, dando autonomia aos indivíduos nas escolhas que deverão ser feitas. É neste contexto que atua o programa Educar é Prevenir. “A ideia é fazer uma prevenção global do câncer. Embora não seja possível evitar todos os tipos da doença, pode-se fazer a partir da prevenção primária. Tumores malignos localizados na pele, no pulmão, na traqueia, na região da cabeça e do pescoço, no pâncreas e na bexiga, são preveníveis com a adoção hábitos de vida saudáveis, como não fumar ou evitar o consumo exagerado de bebidas alcoólicas”, conta Hoff. Outras atitudes importantes dizem respeito à manutenção do peso, controle da obesidade, prática de atividades físicas e prática de sexo com uso de preservativos.

Durante as palestras a concentração completa dos estudantes chamava a atenção. Mesmo após a abordagem de assuntos delicados, como sexo seguro, não se evidenciou o comum burburinho, risadinhas ou piadas tão inerentes ao ambiente escolar. Para Thayna Serra, 18 anos, uma das alunas que participaram da ação, ficou claro como as atitudes adotadas agora podem influenciar a qualidade de vida de cada um no futuro. “O que a gente faz agora vai refletir daqui 10 ou 20 anos. Eu pensava que esse processo era mais curto”, conta.

Outra estudante aproveitou a oportunidade para esclarecer dúvidas sobre a doença. “Muitas pessoas tinham questionamentos simples, mas às vezes falta a informação. Eu pratico esportes, mas você vê que não é só o esporte que ajuda. Tem outras coisas fundamentais. Vou repensar meus hábitos”, revela.

Entre a comunidade médica envolvida com a iniciativa o entusiasmo também ficou evidente – todos os 80 médicos ficaram muito satisfeitos por poder contribuir com a promoção da saúde de pessoas com idade ainda precoce. “Fui recebido pela diretoria e tratado como uma espécie de “celebridade”. Apesar de a escola encontrar-se no final do semestre para fechamento das notas e da proximidade da primeira fase da FUVEST, a palestra foi prestigiada por todos os alunos do terceiro colegial. A apresentação, seguida de perguntas, durou mais de uma hora”, conta Chin Chen Lin. O oncologista, Cláudio Luis Ferrari também vibrou com os resultados. “Retorno da palestra animado. Pude falar sobre o tema a 300 adolescentes. Valeu a pena”.

Continuidade

Embora a ação tenha se iniciado com as palestras, a cartilha e o vídeo, o programa Educar é Prevenir não se encerra por aí – afinal, promover a saúde e a educação deve ser uma ação contínua, tal qual alertava Platão. A continuação das atividades do projeto se dará logo no início de 2012, quando os diretores e professores de biologia receberão um treinamento sobre a prevenção do câncer, por meio de videoconferência com profissionais do Instituto do Câncer. Desta forma, os mestres terão a possibilidade de acrescentar às suas aulas informações precisas sobre o assunto.

Trata-se de uma maneira de potencializar o ciclo da informação, disseminando-a de maneira eficaz entre os jovens. Na opinião do secretário de Estado da Educação, Herman Voorwald, “com esta ação, os alunos passam a ser multiplicadores da informação, além de crescerem conscientes de que é possível prevenir males futuros”.

Para garantir que a informação circule na sociedade, permitindo a promoção da saúde à população em geral, tanto a cartilha quanto os vídeos foram disponibilizados nos portais do Icesp e das Secretarias da Saúde e da Educação – por meio deste último também é possível interagir, encaminhando dúvidas, que serão esclarecidas pelos profissionais do Instituto.

Cartilha contra o câncer.

A prevenção é a principal arma contra o câncer. Hábitos como o tabagismo, consumo de bebidas alcoólicas, sedentarismo, alimentação inadequada e prática de sexo sem proteção, entre outros, são fatores que estão diretamente ligados ao desenvolvimento de diversos tipos de tumores. Evitar esses hábitos e manter uma vida saudável pode ajudar a prevenir a doença.

“É fundamental que a prevenção comece bem cedo, sendo não só uma preocupação com o presente, mas, principalmente, com o futuro. O câncer pode ser evitado em muitos casos e manter hábitos saudáveis é o primeiro passo para combatermos a doença”, alerta Paulo Hoff, diretor geral do Icesp.

Um momento

Há momentos da vida em que nos pegamos pensando que já vimos muita coisa. Passamos por muita coisa, sofremos com muita coisa. Aprendemos com as nossas experiências e às dos outros, colegas, conhecidos, amigos, familiares.

Imaginamos que, diante disso tudo, viver torna-se mais fácil. Problemas tornam-se menores. Enormes rochas transformam-se pequeninas fagulhas no caminho.

E aí nos lembramos que não há nada como sentir na pele. Sentir na pele a dor e o amor. Sentir na pele a repulsa e o acolhimento. Sentir os olhos que recaem sobre nós como espadas afiadas ou como mãos suaves que afagam.

E recordamos, pela experiência prática, de que há momentos em que é possível vivenciar tudo isso, ao mesmo tempo. Vivenciar a dor e o amor, olhares de aprovação e de reprovação. E, nestes momentos, nos redescobrimos enquanto seres humanos. Descobrimos ter forças nunca antes demonstradas. Descobrimos sensibilidades tantas vezes maquiadas. Descobrimos que grandes experiências são capazes de nos transformar em um ser completamente novo. Novo para os outros e novo para nós mesmos.

Quando nos vemos em um desses momentos, em uma dessas etapas cruciais em que olhamos uma parede construída e nos damos conta de que não era aquilo que queríamos, isso não significa, necessariamente, que a parede tenha ficado feia ou tenha sido mal construída. Ao contrário, todo o tempo destinado à sua confecção esteve repleto de dedicação, carinho, concentração, esforço… O fato é que, ao vê-la alí, nos damos conta de que não queríamos uma parede. Mas um barco, uma casa na árvore, um avião…

Destruir a parede para dar lugar a algo novo dói. Mas a esperança e a felicidade que brotam ao tomarmos consciência de que estamos trabalhando para construir uma vida nova, de acordo com nossos sonhos, anseios e possibilidades nos dá o ânimo e a força necessários para seguir adiante.

Mas nesse momento, em que o pó da demolição e o despertar para uma nova situação se misturam, colocamos todos os sentimentos no caldeirão. E embora saibamos exatamente o que causa tristeza, o que causa alegria, o que nos dá esperanças, o que nos desmotiva…, todas essas sensações estão à flor da pele. Nos tornamos mais sensíveis e emotivos. Pela nova situação, tendemos a reparar no que antes havia se tornado comum. O cinza se configura numa nova escala de cores, que vai do branco ao negro… Muitas vezes é difícil domar as emoções que surgem violentas em momentos inapropriados. Difícil, porém necessário. Faz parte do aprendizado.

Nos tornamos pó de nós mesmos, para nos reconstruir. Derrubamos o que não gostamos em nós, transformamos nossas vidas, como se recomeçássemos completamente em uma nova existência. Tornamo-nos oleiros de nós mesmos. Vamos ao fundo de nossa alma para fortificar o que consideramos serem nossas virtudes e para reduzir nossas fraquezas.

Pode ser um processo difícil. Mas é a estrada que escolhemos para nós. E, mesmo sabendo disso, mesmo estando felizes com a transformação, este não deixa de ser um processo dolorido. Resta-nos dizer: ei dor, bem-vinda. Eu te sinto, sim. E você me fortalece…

E abrir caminho para o novo, como diz Bruna Caram, em Palavras do Coração

São sorrisos largos,

Lagos repletos de azul,

Os corações atentos,

Ventos do sul.

São visões abertas,

Certas despertas, pra luz;

A emoção alerta,

Que nos conduz.

Sonhos, aventuras,

Juras, promessas,

Dessas que um dia acontecerão…

Você me daria a mão?

Todos estes versos, soltos dispersos,

No meu novo universo serão

Palavras do coração.

Os artifícios,

Vícios, deixando de ser;

Os velhos compromissos,

Pra esquecer.

São pontos de vista,

Uma conquista comum,

O mesmo pé na estrada,

De cada um

Sonhos, aventuras,

Juras, promessas,

Dessas que um dia acontecerão…

Você me daria a mão?

Todos estes versos, soltos dispersos,

No meu novo universo serão

Palavras do coração.

Ps: Sim, eu te daria a mão. E seguiria com os meus pés nessa mesma estrada… Para que ela nos leve sempre na mesma direção, rumo aos sonhos e aventuras, às juras e promessas que um dia se concretizarão…

Contra a ignorância

Li hoje uma matéria linda! Sensível, inteligente e verdadeira. A jornalista Cristiane Segatto, da Época,  conseguiu captar exatamente o sentido e o propósito da campanha Educar é Prevenir, criada pelo Instituto do Câncer do Estado de São Paulo, em parceria com as Secretarias de Estado da Saúde e da Educação. Por isso, resolvi compartilhar o material.

A luta contra o câncer é a luta contra a ignorância

Em 2012, o Brasil terá 519 mil casos novos da doença. Como os adolescentes podem virar o jogo

CRISTIANE SEGATTO - Repórter especial, faz parte da equipe de ÉPOCA desde o lançamento da revista, em 1998. Escreve sobre medicina há 15 anos e ganhou mais de 10 prêmios nacionais de jornalismo.

O Brasil de hoje é melhor que o dos anos 80. O país avançou, mas ainda tem uma dívida enorme no quesito educação. A falta de conhecimento é um entrave sob vários aspectos, mas se torna cruel quando consome a saúde. Um exemplo? Pense nos mitos que em pleno século XXI atrapalham a prevenção e o combate ao câncer. A luta contra o câncer é a luta contra a ignorância.

Vou guardar para sempre a última conversa que tive com o ex-presidente José Alencar. Foi no quarto 1106 do Hospital Sírio-Libanes, em São Paulo. Ele morreria dois meses depois. Em cinco anos de luta contra um sarcoma, Alencar recebeu inúmeras mensagens de pessoas que diziam ter a cura do câncer. As receitas mais estapafúrdias chegaram a ele.

Naquele dia, Alencar usava um iPad para ler os emails. A mágica sugerida era uma poção de graviola. Ele correu os olhos pela mensagem, mas não se impressionou. Em tantos anos de batalha pública contra a doença, ele se acostumou a ler de tudo. Quem envia essas receitas costuma ter boa intenção, mas acho que é um desrespeito com o doente.

Agora é a vez do ator Reynaldo Gianecchini. Recentemente indicaram a ele uma panacéia à base de aspargos. O remetente acredita que adquirir aspargos in natura, cozinhá-los, fazer um purê e comer essa papa em jejum cura todos os tipos de câncer e fortifica o sistema imune. Bobagem.

Se a educação dos brasileiros é ruim, o ensino de ciência é muito pior. Falta cultura científica à nossa população. O resultado é a perpetuação desses mitos. O que fazer? Aceitar que a crença nessas bobagens é um traço cultural do povo brasileiro ou tentar virar o jogo?

Só a educação salva – e ela deve começar cedo. Estou certa disso. Essa também é a convicção do oncologista Paulo Hoff, famoso por ter cuidado ou acompanhado de perto o caso de várias celebridades que tiveram câncer recentemente (José Alencar, Dilma Rousseff, Lula, Reynaldo Gianecchini etc).

Além de atender os vips que se tratam no Sírio-Libanês, Paulo dirige o Instituto do Câncer do Estado de São Paulo (Icesp). Na quinta-feira (24), ele voltou à sala de aula. Deu uma palestra sobre prevenção a alunos do ensino médio da Escola Estadual Romeu de Moraes, na Lapa.

Outros 79 médicos se deslocaram até outras 79 escolas estaduais. Num único dia, cerca de 24 mil estudantes receberam as informações mais confiáveis sobre prevenção e tiveram a chance de desconstruir muitos mitos – um por um. Daqui para frente, o objetivo é treinar os professores de ciência para que o tema seja incluído na grade das escolas.

Fiquei encantada com o interesse demonstrado pelos alunos da Escola Romeu de Moraes. Assistiram à aula com a maior atenção. Sugaram cada minuto da atenção de Paulo e quase não o deixaram ir embora. Fizeram dezenas de perguntas.

Queriam saber se a menstruação precoce e a menopausa tardia aumentam o risco de câncer de mama. Se existe limite seguro para o consumo de cigarro. Se um bebê pode nascer com câncer. Se telefone celular causa câncer e como a doença se espalha. Qual é a diferença entre tumor benigno e maligno etc. Se você também tem dúvidas, acesse a cartilha e os vídeos produzidos pelo Icesp em parceria com a Secretaria Estadual de Educação.

Jovens bem informados são agentes de transformação. Podem influenciar familiares, amigos, espalhar o conhecimento pelas redes sociais. Mas há uma outra razão para investir nesse público.

o Hoff na Escola Estadual Romeu de Moraes: uma aula de prevenção e de esperança

A prevenção feita hoje vai render frutos daqui a duas décadas. Se esses meninos não quiserem ter câncer aos 50 anos, precisam se cuidar desde já. Ficar longe do cigarro (30% das mortes pela doença são causadas pelo fumo), aprender a gostar de alimentação saudável, usar protetor solar, fazer atividade física e sexo seguro.

Um tumor que aparece hoje provavelmente começou a ser gerado há 20 anos, quando o DNA das células começou a ser continuamente agredido por agentes carcinogênicos e o corpo não foi capaz de eliminar as células mutadas que dão origem ao câncer.

Quando o câncer é descoberto e se desenvolve rapidamente, esse é só o final do processo. É só a ponta do iceberg. O dano começou lá atrás, na juventude. Num tempo em que nos sentimos livres, intocáveis e imortais.

“Um sujeito de 50 anos pode ter um câncer de pulmão por causa de um carcinógeno que inalou quando tinha 20 anos e fumava”, diz Paulo. É claro que pessoas de qualquer idade devem se cuidar, mas para ganhar o jogo, de verdade, é preciso ter bons hábitos desde sempre. Começar a cuidar da saúde aos 49 anos porque o risco de câncer é maior a partir dos 50 anos não é a estratégia mais inteligente.

Em 2012, o Brasil terá 519 mil casos novos da doença, segundo uma estimativa divulgada nesta semana pelo Instituto Nacional de Câncer José Alencar Gomes da Silva (Inca). São 59 novos casos por hora ou 1.416 por dia. A estimativa de 2010 era de 489 mil casos.

“A prevenção feita hoje terá impacto no futuro. Só vamos conseguir modificar o curso da doença se investirmos nas crianças e nos adolescentes”, diz Cláudio Noronha, coordenador da área de ações estratégicas do Inca.

A impressão de que o câncer se tornou uma doença mais comum não é impressão. É a realidade. “Quando vocês tiverem 50 anos, a mortalidade por câncer será muito exacerbada no Brasil”, disse Paulo aos garotos. “Então, decidam agora o que vocês vão ser no futuro.”

A população deseja tratamentos modernos e acessíveis a todos. É uma aspiração justa, mas do ponto de vista epidemiológico significa apenas apagar incêndio. A forma mais eficaz e barata de interromper a curva de crescimento do câncer no Brasil é investir em prevenção.

A moçada da Escola Estadual Romeu de Moraes me encheu de esperança. Se cada adolescente, cada médico, cada jornalista, cada cidadão que

Risco controlado

Vigilância diferenciada auxilia na prevenção do câncer de mama.

por Carina Eguia 

Pode parecer clichê, mas quando o assunto é saúde, o melhor remédio sempre é a prevenção. Quando se trata de câncer, então, essa pode ser a chave para a cura ou, pelo menos, para a descoberta precoce do problema, quando o prognóstico geralmente é bastante favorável. Por isso, a adoção de hábitos de vida saudável e o acompanhamento médico regular devem fazer parte da rotina de todas as pessoas.

Quem possui histórico familiar para a doença demanda uma dedicação ainda mais acentuada à manutenção da saúde, com consultas regulares ao médico. Esses cuidados sempre fizeram parte da rotina de Jildete Maria Santana, que aos 50 anos descobriu um tumor no seio. “Quando notei aquele caroço, quase entrei em desespero. Logo me lembrei de tudo o que sofreram as minhas duas irmãs, minha mãe e minha tia”, conta.

As familiares de Jildete fazem parte de uma estatística nada animadora: o câncer de mama é, atualmente, uma das doenças que mais mata em todo o mundo, sendo, no Brasil, a segunda principal causa de morte entre as mulheres. Justamente pelo grande histórico familiar para a doença, a dona de casa sempre fez questão de manter em dia a agenda anual de consulta com o médico. Mesmo assim, o choque foi grande quando, de um ano para o outro, percebeu uma alteração na mama. Depois de ser avaliada por um especialista e de ter em mãos os exames que atestavam se tratar apenas de uma massa benigna, recebeu orientações para um acompanhamento mais intenso.

Por ter parentes em primeiro grau com a doença, ela faz parte de um grupo da população feminina – cerca de 1% a 2% – que necessita de maior vigilância para prevenção deste tipo de câncer. Por isso, ela foi encaminhada para o Ambulatório de Condutas Especiais em Pacientes de Alto-Risco (Acepar) do Instituto do Câncer do Estado de São Paulo (Icesp) em parceria com o Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da USP (HCFMUSP), onde passou a fazer parte de um grupo de 320 mulheres que são monitoradas permanentemente por apresentarem um risco elevado para a doença.

De acordo com Ângela Trinconi, mastologista que coordena as atividades do Ambulatório, há vários fatores que ampliam o risco de surgimento da doença. Entre eles pode-se destacar a hereditariedade, o fato de ter a primeira menstruação precocemente ou a menopausa tardia (após os 50 anos); e engravidar após os 30 anos ou não ter filhos. A ingestão regular de álcool, mesmo que em quantidade moderada, e o tabagismo também são comportamentos que ampliam as chances de desenvolvimento de um câncer. É justamente no atendimento à faixa da população que apresenta um risco genético para câncer de mama elevado que o Acepar concentra seus esforços, acompanhando mulheres que possuem dois ou mais parentes de primeiro grau (mãe, irmã ou filha) que tiveram câncer de mama; as que têm parentes jovens de primeiro grau com a doença; aquelas que possuem histórico de câncer de ovário ou as que têm histórico de câncer de mama em homens na família, além de pacientes com biópsia de mama que apresentem alterações atípicas nas células obtidas.

No Instituto do Câncer, elas são incluídas em um esquema de seguimento diferenciado, que inclui o acompanhamento e a avaliação clínica, além da realização de mamografias e ressonâncias magnéticas, alternadamente, em um intervalo máximo de seis meses. Ou seja, se a paciente acabou de realizar uma mamografia, dentro de seis meses deverá ser submetida à ressonância. “Esse acompanhamento é essencial para definir se há ou não necessidade de adoção de uma conduta terapêutica preventiva”, explica a mastologista.

Acompanhada pelo Icesp há três anos, Jildete não esconde que o impacto inicial do encaminhamento ao Ambulatório foi um choque. “No início, tive muito medo. Pensar que você pode ter a doença a qualquer momento é muito angustiante”, conta. “Mas, depois, você acaba entendendo que o fundamental é acompanhar. Assim, qualquer problema será descoberto no início, facilitando o tratamento. A partir do momento em que entendi isso, fiquei mais tranqüila para seguir em frente”. Uma de suas receitas para controlar a tensão e deixar a vida seguir normalmente é ocupar a agenda. A dona de casa que não gosta de ficar parada dedica-se não apenas à família e aos afazeres domésticos: ela faz parte do corpo de voluntários de um asilo e de uma entidade de assistência à crianças órfãs. Entre os prazeres que descobriu aos poucos está o prazer em cuidar de sua saúde. “Demorou, mas aprendi a me dedicar também a mim. Por isso, todos os dias corro 12 quilômetros e não abro mão de ter sempre meus exames em dia”, revela.

A cultura do auto-cuidado está tão enraizado na família que Shirlei Maria Santana, filha de Jildete, também realiza um acompanhamento mais intensivo em outro hospital, depois de notar alterações no seio. “Damos força uma a outra”.

Além da vigilância, as participantes do programa recebem informações sobre medidas preventivas, como o uso de substâncias que bloqueiam os receptores de estrogênio no corpo – quimioprevenção, uma alternativa àquelas que apresentam um alto risco histológico (celular) para o surgimento da doença. No hall das ferramentas disponíveis também estão as cirurgias redutoras de risco, que consistem na retirada da glândula mamária ou dos ovários – quando a mulher já tem filhos. Trata-se de uma alternativa para casos de pacientes que fazem parte de uma família em que há um gene mutante. “Estas cirurgias podem reduzir em mais de 90% a chance de ocorrência do câncer de mama em pacientes de alto risco”, explica a coordenadora do Ambulatório. “A prevenção é sempre a melhor alternativa e, nos grupos de alto-risco, torna-se essencial à promoção da vida”, conclui.

 

por Carina Eguía e Felipe Godoy

Matéria de capa (Ano 2 | nº8 | Outubro de 2011

Referência no Brasil e fora dele quando o assunto é uro-oncologia, Miguel Srougi avalia os avanços e os tabus da especialidade.

 Humildade e sensibilidade. Estas são, sem dúvida, características marcantes do médico urologista Miguel Srougi, evidentes mesmo para quem o encontra pela primeira vez. Casado e pai de dois filhos – um deles segue os passos do pai – Srougi é hoje um dos principais nomes da uro-oncologia nacional. Mesmo assim, afirma não se achar “tomado por todos esses predicados e qualidades”. Segundo ele, um único indivíduo não realiza grandes coisas sozinho; a diferença se faz a partir do trabalho de grupos de pessoas de grande valor.

Com mais de 35 anos de carreira, banhados por muita dedicação e foco, formou-se pela Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (FMUSP), pós-graduou-se pela escola de medicina de Harvard e escreveu diversos livros. Dos tios, também médicos, vieram os exemplos para seguir a carreira. Mais tarde, “deixou-se impregnar” pelo talento de outros importantes profissionais, nomes como Ruben Gittes, Ernesto Lima Gonçalves, Marcel Machado, Antonino dos Santos Rocha, Ruy Bevilacqua e Eugênio Ferreira.

Entre a família, o trabalho e a busca pela felicidade – que diz encontrar quando consegue fazer o bem pelos pacientes ou pelas instituições em que atua – divide seu tempo, com uma calma notória, mesmo em meio ao turbilhão de atividades que fazem a vida correr “nos limites da decência”.

Das muitas lembranças que carrega, destaca o fato de ter vivido fora do país. Em sua opinião, todos os estudantes deveriam passar por esta experiência. “Isso molda o indivíduo, transformando-o em um ser mais rico. Além disso, bons médicos devem conseguir estabelecer relações humanas profundas, compreender bem a sociedade, a natureza e a psicologia humanas. Também é preciso ter como características inatas compaixão, altruísmo e espírito de doação”.

Para Srougi, a medicina proporciona àqueles que a exercem alguns momentos inebriantes, marcados pelos instantes em que se salva uma vida, reconforta o sofrimento e a dor de uma pessoa, ou quando se consegue influenciar positivamente as novas gerações. “Com esses dois tipos de estímulo, sou feliz e me sinto completo”. Em entrevista à SP Câncer, o médico avalia o desenvolvimento da urologia nos últimos 40 anos, fala sobre novas tecnologias e sobre o preconceito masculino no cuidado com a saúde.

 

SP Câncer – O sr. definiu a prática da urologia, na década de 1970, como sendo tradicional. Hoje, como o Brasil é visto no exterior com relação a esta especialidade?

MS – Atualmente, o Brasil é visto de forma bastante qualificada. Acredito que o principal motivo para esta reviravolta tenha sido o grande movimento de criação de programas de pós- graduação, o que ajudou, também, a incrementar a pesquisa. Isto porque estes programas – e seus graduandos – necessitam produzir trabalhos de acordo com todos os princípios mais consistentes de pesquisa. Hoje, a pós-graduação da urologia da FMUSP tem as melhores notas do país na Coordenação de Aperfeiçoamento Profissional de Nível Superior (Capes). Isto gera outro movimento importante: de maneira geral, a especialidade publica muitos artigos fora do Brasil. Para se ter uma ideia, a International Brasilian Journal of Urology é a quinta revista mais lida do mundo. Estes fatores, somados à atuação internacional de profissionais brasileiros, projetou positivamente a área.

 

SP Câncer – Como está a produção de conhecimento sobre o assunto? Qual o papel do Icesp neste sentido?

MS – A produção de conhecimento é intensa. O Icesp e o Hospital das Clínicas (HC) têm um papel que está se tornando insubstituível. Os dois hospitais estão recheados de profissionais de grande valor pessoal e técnico. Esse é o fator mais importante para que se coloque uma instituição em pujança. O ICESP teve o privilégio de ter sido comandado por um grupo – e eu até cito nominalmente Giovanni Guido Cerri (atual Secretário de Estado da Saúde), Paulo Hoff, diretor-geral do Instituto, e Marcos Fumio Koyama (atual superintendente do HC) – constituindo uma trinca que transformou um bloco de concreto no maior hospital público do Brasil, unindo, além de competência, importantes princípios pessoais imprimidos na instituição. O HC, por sua vez, é incomparável a qualquer outro hospital em temos assistenciais. Aqui são feitas 1,5 milhões de consultas e 600 mil cirurgias de médio e grande porte, anualmente. Fora isso, as duas instituições tem um papel no ensino médico brasileiro de grande destaque, concentrando um arcabouço de formação na saúde na América Latina. Aqui se desenha a medicina do futuro, formando as pessoas que, provavelmente, liderarão a área nos próximos 20 ou 30 anos.

 

SP Câncer – Quais os principais desafios da urologia no país, atualmente?

MS – A cadeira tem tido bons líderes, que estão adaptaram às inovações tecnológicas. Isso faz com que ela continue se desenvolvendo. Uma especialidade médica, para prosperar, tem que ter, além de uma estrutura consistente, uma área de atuação abrangente. A urologia tem essa característica. Mas, apesar de o trato urinário ser um sistema pequeno, as patologias urológicas são comuns e incluem problemas de alta prevalência na população, atingindo de crianças à idosos.

 

SP Câncer – Quais foram as principais descobertas da última década? O que isto representa para a população?

MS – Ao contrário do mito e do anseio popular, a medicina evolui lentamente. A verdade é que as pessoas não estão vivendo mais graças aos grandes avanços tecnológicos da medicina. A grosso modo, a expectativa de vida da população aumentou graças à realização de obras de infra-estrutura. Embora isso possa parecer meio grosseiro, o que tem ampliado a sobrevida dos indivíduos é o acesso ao sistema de tratamento de água e esgoto, atendimento à saúde infantil, cuidados com a maternidade e com a alimentação, vacinação em massa, uso de antibióticos e anestesias. Mas estas são questões do século passado. Não há uma grande revolução na medicina, atualmente. Não são as novas medicações, ou equipamentos ultramodernos que modificarão significativamente a vida da população.

 

SP Câncer – Quando falamos de tumores urológicos, como está o mapa epidemiológico do país?

MS – O câncer urológico não tem um retrato regional bem definido. O câncer mais comum é o de próstata. Mas, no Brasil, apesar dos esforços do Instituto Nacional do Câncer (INCA), ele é sub-avaliado. Não existe um registro confiável de incidência. O câncer de bexiga, ligado ao consumo de cigarro, aumentou muito em mulheres, devido ao crescimento do consumo do tabaco pela população feminina, desde o fim do século passado. O de pênis é o único que tem uma distribuição regional clara, sendo mais comum nas regiões pobres. Este tipo de tumor está associado à má higiene do local e sua incidência no nordeste é 20 vezes maior que a verificada no sudeste.

 

SP Câncer – Temos acompanhado um grande progresso tecnológico da área médica, consolidando um verdadeiro arsenal que pode ser empregado do diagnóstico ao tratamento de diversas doenças, incluindo o câncer. Especificamente na área da uro-oncologia, que novos benefícios estão à disposição dos pacientes?

MS – Acho que procedimentos como a vacina para o câncer de rim ou técnicas de cirurgia minimamente invasivas têm uma ação pontual. Com esses novos aparelhos, podemos tratar alguns pacientes com câncer de próstata ou de rim, por exemplo, mas isso não muda a sobrevida e não amplia suas chances de cura. Obviamente, esses tratamentos permitem uma ação menos agressiva, sem cortes e com um tempo de internação menor. Em contrapartida, são mais onerosos. Acredito que essas novas tecnologias têm recebido um excesso de atenção, por prometerem melhorar índices de impotência e incontinência, por exemplo. Mas os dois melhores trabalhos científicos sobre o assunto não mostraram diferenças significativas: o primeiro disse que os resultados nestes quesitos eram piores que os da cirurgia convencional; e o segundo indica uma melhora, apontando que a diferença, na verdade, está no cirurgião e não na técnica utilizada. No caso das vacinas, é fato que elas têm melhorado a perspectiva para os pacientes com câncer de rim. Mas não fazem a doença regredir, ou seja, não são curativas. Sendo assim, tem uma ação limitada, auxiliando a ampliar a expectativa de vida destes doentes, ainda que a um custo bastante elevado e sem reflexos à qualidade de vida. Será que vale a pena?

 

SP Câncer – No conhecimento geral da população, o HPV está muito ligado ao desenvolvimento de tumores ginecológicos. Ele pode afetar a saúde do homem?

MS – O Papiloma Vírus Humano (HPV), aparentemente, causa câncer de pênis. Cerca de 30% a 40% dos homens com este tipo de tumor também são portadores do vírus. Infelizmente, a vacinação em massa, ainda é uma realidade distante. Sendo assim, o uso de preservativos em todas as relações sexuais é fator de grande importância na prevenção deste tipo de tumor.

 

SP Câncer – A partir de quando o homem precisa se preocupar em realizar exames periódicos?

MS – O câncer do homem que justifica a realização de exames regulares é o de próstata, que deve se iniciar aos 45 anos. No caso de pessoas com histórico familiar da doença (pai ou irmão), a idade indicada para início da realização dos exames cai para 40.

 

SP Câncer – Antigamente a indicação para início do rastreamento para o câncer de próstata era a partir dos 50 anos. Há um motivo para a doença estar atingindo populações mais jovens?

MS – Não se sabe. Há três motivos que provocaram o aumento da incidência do câncer de próstata. O primeiro é o crescimento da expectativa de vida. Depois, é preciso considerar a descoberta do PSA (antígeno prostático específico), uma proteína que se altera quando a doença está instalada, permitindo a detecção do câncer em pacientes que não apresentam alteração do volume do órgão. E o terceiro é, provavelmente, um motivo ambiental. Os japoneses, por exemplo, apresentam baixa incidência de câncer de próstata. Mas, quando um indivíduo sai do Japão para morar nos Estados Unidos, mudando os hábitos alimentares e o estilo de vida, tem o risco ao desenvolvimento do problema igualado ao apresentado pela população norte-americana. Isso faz com que creditemos o aumento do risco à fatores ambientais.

 

SP Câncer – Considerando os preconceitos e a resistência da população masculina em cuidar da própria saúde, é mais difícil estabelecer uma relação médico-paciente saudável e proveitosa?

MS – Existe um processo darwiniano. Segundo a teoria evolucionista, só sobrevivem os animais mais fortes; os mais fracos desaparecem. O homem, não quer se mostrar fraco, doente ou frágil, para manter seu papel e respeito social. Isso pode parecer muito teórico, mas é real. Vejo isso no meu dia-a-dia: os pacientes, em especial as figuras públicas, sofrem mais por saber que sua doença será exposta aos grupos a que pertencem do que por estar com câncer. Existe, sim, o problema do preconceito com relação ao toque e à possibilidade de que o exame provoque dor, embora esse não seja um sentimento unânime. Essa postura prejudica uma ação rápida diante de um diagnóstico precoce. Há, entretanto, muitos homens que se cuidam, de maneira geral, fazendo exames preventivos periodicamente. Essas pessoas se beneficiam, realmente, do que a medicina pode oferecer.

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