Feeds:
Artigos
Comentários

Plantio

Havia escutado que o amor pode surgir de lugares improváveis. Mas seu íntimo reconhecia, depois de tudo que havia vivido, que essa coisa de amar poderia funcionar bem para os outros, mas não pra ela.

Levou um tempo para que aceitasse que aquele almoço despretencioso fosse a semente pela qual tanto havia esperado.

E cultivar aquela semente foi uma escolha. Pensou inúmeras vezes em guardá-la com carinho, sem efetivamente plantá-la. Perguntou-se se valeria a pena investir energia, tempo e dedicação naquele plantio e no cultivo delicado que aquela semente exigiria. Questionou-se, aproveitando a oportunidade para punir-se, porque imaginava que dali poderia nascer a árvore frondosa e frutífera com a qual sonhara… Não havia demonstrado para si e para o mundo, afinal, que as habilidades de jardinaria não faziam parte de suas capacidades?

Evitou. postergou. Cogitou deixar a semente à própria sorte para que alguém mais digno a encontrasse. Ou quem sabe fosse mais apropriado lançá-la de volta às mãos de quem a havia perdido…

Mas o fato era que havia aos poucos se afefuado àquele grão que insistia em fazer-se presente, fitando-a de um modo faceiro e com o olhar carregado de esperanças.

Pesou riscos, buscando formas de negativar seus impulsos primários, que insistiam na necessidade de livrar-se precocemente daquela semente, reacendendo todos os pesadelos distantes e recentes que outros grãozinhos daquela mesma espécie fizeram-na passar. De fato, os desagravos tinham sido muitos. Ainda esmagavam-lhe o peito e impunham a verdade de que ela não seria, jamais, merecedora de desfrutar da segurança e do acalanto proporcionado pelo amor.

Prometeu a si mesma que deixaria as coisas correrem de maneira despretenciosa, eventualmente até insossa. Talvez assim pudesse proteger-se. Talvez assim pudesse evitar os infortúnios causados por ervas daninha disfarçadas de sementes verdadeiras.

E assim, sem qualquer certeza; carregada de dúvidas e de poréns, depositou a semente a meio palmo do último punhado de uma terra descontaminada que havia reservado. E esperou.

Dia a dia observava seu plantio. Primeiro com medo, mais tarde com alguma esperança.

Agradeceu por terem confiado a ela a chance de plantar. Regou e buscou adubar com substratos sabidamente benéficos.

Cuidou para que a terra contaminada do entorno não transferisse àquela semente os nocivos e contaminantes desvarios que a atacavam.

Deixou de cultivar a mágoa e a tristeza. E embora elas ainda estivessem lá, não eram mais alimentadas. Os monstros minguaram e os fatos que eles representavam voltaram a cumprir papel de professores, dos quais extraia aprendizados importantes para que a nova semente pudesse frutificar.

Viu surgir uma muda, de folhas verdes e vivacidade intensa. E a semente em muda vivia a lhe observar, curiosa sobre como o cultivo sucederia. Aqueles olhinhos a fitar-lhe continham a história da semente, dos tempos de antes de virar semente. Não tinha sido fácil para ela também. Havia um tanto de medo, de dúvida e de incerteza. Por isso fitava-a com interesse ímpar e avassalador.

E estavam assim, a observar-se con grande interesse e ressalvas interiores, buscando racionalizar o crescimento das raízes, caules e folhas. Buscando identificar a verdade contida em toda aquela experiência. Buscando entender o quão profundas podem ser as cicatrizes mas também vislumbrando as possibilidades de aprendizado incrustadas nesses doloridos rincões.

E seguiriam assim, na busca por saber que caminhos tomariam a existência daquela semente. Sem projeções, nem expectativas exageradas. Somente observando e cuidando, adubando, valorizando o sol e a chuva.

Enquanto isso, assim como havia acontecido com o Príncipe e sua Rosa, ambos – a semente que virou muda e ela – ensinavam e aprendiam no tempo que a existência lhes permitia.

Anúncios

Sem palavras

Hoje eu tinha muita coisa pra dizer,

E não tive forças.

E não tive palavras.

E não tive jeito.

Hoje teve amor e dor

E sorrisos

E lágrimas

Um espaço preenchido

E um vazio

Hoje a areia escorreu por entre os dedos

E o mal entendido minou o diálogo

E as palavras ficaram truncadas

E a garganta amarrada

A voz embargada

E as lagrimas fluíram livres feito rio

Hoje eu só queria dizer que te amo

Que sinto falta

Do abraço

Da pele

Do cheiro

Da cor

Mas a indiferença freou o impulso

E congelou o instante

Me trazendo de volta pro universo gelado que eu sonhei esquecer

Hoje durmo na cama preenchida de ausência,

Coberta pela displicência inocente

Reviro para os lados impaciente

Com a minha incapacidade de controlar essa ansiedade

De dizer que te amo

De me ver acolhida em seus braços

Preenchida do seu gozo

Inebriada do teu cheiro

Inundada de calor

Pelo teu amor

Mas é que hoje eu tinha muita coisa pra dizer

Mas não tive forças.

Mas não tive palavras.

Mas não tive jeito.

Despertar

Ela acordou e encontrou os olhos dele a fitarem seu despertar. Plácidos e ternos, transmitiam alegria por estarem ali, desfrutando juntos da paz embalada pelo som das ondas que vinham beijar a areia. Ela sorriu, mirando a profundidade daquelas pupilas que a observavam. Os dedos dele percorreram suavemente seu braço desnudo e seu cabelo despenteado. Tudo nele era admiração e ternura. Paz. Beijou-lhe a testa delicadamente e se levantou devagar para trazer-lhe uma xícara de café.

Ela sentou-se e da janela, enquanto dragava lentamente o líquido negro, observava-o pitando o cigarro na varanda.

As horas ao lado dele transcorriam num compasso diferente. Levitavam pelo espaço-tempo divertindo-se com a maresia das horas. Não havia motivo para preocupações infundadas ou cobranças desnecessárias. Eram apenas eles. Desfrutavam um do outro em sua essência mais pura.

Ele voltou. Seu olhar sustentava a mesma ternura que ela experimentara ao despertar. Calmamente, ele a sustentou em um abraço acolhedor e aconchegante. Enquanto seus braços contornavam sua cintura, ela sentia o pulsar compassado daquele coração. Aos poucos conhecia sua história, seu DNA, suas cicatrizes e marcas de guerra. Admirava que tendo tudo para endurecer, permaneceu doce, qualidade que buscava disfarçar sob uma fina máscara de marra.

E ela gostava das oportunidades que tinha para desvendar sua essência. E, na despedida, lamentava-se pela chegada da temporada em que a ausência dominaria. Suspirava na tentativa de controlar seus instintos que gritavam pela vontade de garantir a permanência.

E fechava os olhos para poder encontrar de novo os olhos dele a fitarem seu despertar, inundados de ternura e alegria.

Shake it

Perguntaram a ela: de onde vem essa energia? Você não cansa nunca. Acorda, trabalha, cuida deles, dança. Dança em casa ou na pista. Às vezes faz de casa uma pista. E requebra nas quebradas da vida. Cai. Levanta. Supera e… dança. De onde vem essa energia…?!

Ela diz! Vem do entusiasmo. Entusiasmo de ter outra chance e todas as ferramentas pra tentar. E tentar. Quem não cai? Até presidente cai! 😂

Mas o entusiasmo… o entusiasmo faz a gente dar aquele turntable. Manja?

O entusiasmo gera o sorriso. O sorriso atrai aquelas energias boas. E começa o ciclo… quem é que para de dançar com AQUELA música boa? Aquela que faz você voltar correndo pro meio da pista, mesmo depois de ter pago a conta e estar prestes a sair.

A vida é esse entusiasmo. E ele não te deixa cansar, nem desistir. Jamais! O entusiasmo dela vinha do seu deus interno – tipo namastê, saca… o deus que nos move. Esse que habita nosso coração.

Sem trocadilhos! “Entusiasmo” vem do latim, enthusiasmus, que é, por sua vez derivado do grego enthousiasmos: ,e significa “Inspiração divina”. A palavra grega faz parte do verbo enthousiazein: “estar inspirado por um deus”.

E esse Deus que a inspira é provedor de uma energia capaz de transmutar toda luz escura em plenitude, alegria e paz. E a permite dançar! Dançar e dançar na certeza de que essa liberdade é o que vale. A liberdade de dançar a música, remixando melodias tristes e envolvendo o mundo com aquele imenso sorriso emoldurado pelo batom vermelho.

Baby, now (shake it up, baby)

Twist and shout (twist and shout)

Come on, come on, come on, come on, baby, now (come on, baby)

Come on and work it on out (work it on out)

Beattles

Recomeço


Tantas eram as falsas promessas que haviam dito ao seu coração… Tantos desejos eternos que se provaram momentâneos, tantas juras românticas perdidas aos poucos no mar etéreo da rotina… 

Cada lágrima corrida levava consigo um pouco da dor e da capacidade de acreditar. Tivera tanto medo da solidão… E agora esta era a única coisa em que se propunha acreditar. A solidão era sincera e verdadeira na medida em que lhe apresentava um reflexo dela mesma. A solidão não a abandonaria, jamais mentiria, não trairia nem a confundiria.

Mergulhada ali, no mar escuro e profundo da sua alma, oscilava entre esperança e força, tristeza e agonia, fraqueza e desconfiança, fé e perseverança, entre a dor e o amor.
Lutava para apagar as lágrimas, lutava em busca do alívio que a permitiria respirar, lutava em busca do equilíbrio que a permitiria continuar. 

De que interessa ao mundo sua dor? Há tanto sofrimento impetrado por problemas profundos e sérios corroendo a humanidade que sentia-se mal por haver deixado rolarem em seu rosto as cintilantes gotas doloridas da sua existência.
Descobriu na solidão um refúgio nada plácido, porém seguro. O mergulho em sua própria imensidão poupava-lhe qualquer necessidade de interação. 

Ainda gostava de observar e mantinha a pureza de se sentir verdadeiramente grata pelas conquistas de conhecidos próximos e distantes. Mas perdera o interesse por compartilhar. Seus julgamentos lhe bastavam. Seus próprios dedos em riste lhe bastavam. Sua própria incapacidade de fazer com que tudo funcionasse à maneira como crescera sonhando bastava-lhe. E uma vez isso lhe bastasse deveria poupar naqueles que a rodeavam qualquer interação com aquele mar profundo, escuro e oculto de desejos perdidos e frustrações empilhadas. Os ferros e engrenagens retorcidos de suas angústias serviriam de alicerce para a carapaça de uma existência plena.

Deveria poupar aos outros e a si mesma da interação com falsas realidades criadas com objetivo único de angariar cliques pouco interessados em instantes congelados de uma falsa felicidade. 

E assim iniciou sua nova jornada, mergulhada no gélido e sombrio mundo interior de castelos desolados e corações partidos. Passos insertos impulsionavam-na, titubeastes na certeza de que nada mais seria como antes.

Minha razão está fundamentada no que eu sinto e percebo. Minha razão viaja acompanhada da emoção, sendo, muitas vezes, guiada mais por informações “subjetivas” do que “objetivas”. E quem disse que só a objetividade deve ter valor para uma razão bem construída? Entre o ser algo e parecer ser algo muitas vezes há um abismo incalculável. Sendo assim, não estaria errado dizer que minha razão está fundamentada no status quo, sendo que o estado atual das coisas está, obrigatoriamente, relacionado ao estado passado das coisas e intimamente ligado a fatores subjetivos, além dos objetivos… Olhares, nuances e gestos podem ser absorvidos como fatores objetivos. Uma mudança de comportamento, uma alteração boba em um gesto cotidiano, um tremor na voz, um gaguejar ou uma hesitação podem trazer muito mais informação ao interlocutor atento que a dureza das palavras pronunciadas. Nesses momentos, cruzam-se as informações do ser com o parecer ser. E o desafio é descobrir se não se é o que parece ou não se parece o que se é.
Sim, é possível obter muito mais informação no não dito do que no dito. Assim, aceito que conceituação de objetividade (ou subjetividade) das coisas depende mais da experiência, do olhar, da sensibilidade e acurácia de quem assiste, diferentemente do que indivíduos extremamente racionais podem imaginar. Sim, o que é subjetivo para uns, pode ser concreto e objetivo para outros. Para quem mantém todos os sentidos alertas, as cenas cotidiana certamente trazem muito mais informações do que quem busca abrigar-se detrás da dureza de algumas objetividades.

Dor

A dor, aquela que fere, que maltrata, que mata e angustia a alma, que nos faz perder a visão da vida e de sobrevida, só existe e impera e realiza todas as suas crueldades infames enquanto não aceitamos que a coisas são como são. Em nossa condição humana – em que se tem um ideal, se busca o melhor, se luta pelo crescimento pessoal, emocional, espiritual – resistimos e repudiamos, queremos exorcizar tudo aquilo que vai contra nossos planos, sonhos e projeções idealizadas de um futuro aconchegante e belo.

Quando a vida nos mostra que os contos de fada são apenas licenças poéticas, sentimos essa dor tão profunda e intensa, capaz de nos varrer a alma e macular o coração. Parece estranho dizer que a chegada e a partida dessa dor dependam exclusivamente de nós. Entretanto, vale refletir que ela só existe porque custamos a aceitar a realidade – que nada tem de cruel ou maligna, sendo produto exclusivo da maneira como conduzimos as coisas – e lutamos contra o que a vida nos impõe.

Aceitar, simplesmente aceitar, é a libertação da dor. Aceitar que erramos. Que os outros são passíveis de erros, enganos e equívocos, que não podemos controlar tudo, que nada se conduz exclusivamente de acordo com a nossa vontade. Ao aceitar, encontramos a chave que nos liberta da prisão da dor. E aquilo que parecia tão assombroso diminui. Algumas vezes até desaparecer. Outras vezes fica ali, latente, mas tão diminuta, que nos serve apenas de alerta para os passos que conduziremos dali por diante.

Não é preciso temer a dor. Ela virá para ensinar a viver e a sobreviver. Aprender a aceitar isso é a paz necessária para continuar.