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Despertar

Ela acordou e encontrou os olhos dele a fitarem seu despertar. Plácidos e ternos, transmitiam alegria por estarem ali, desfrutando juntos da paz embalada pelo som das ondas que vinham beijar a areia. Ela sorriu, mirando a profundidade daquelas pupilas que a observavam. Os dedos dele percorreram suavemente seu braço desnudo e seu cabelo despenteado. Tudo nele era admiração e ternura. Paz. Beijou-lhe a testa delicadamente e se levantou devagar para trazer-lhe uma xícara de café.

Ela sentou-se e da janela, enquanto dragava lentamente o líquido negro, observava-o pitando o cigarro na varanda.

As horas ao lado dele transcorriam num compasso diferente. Levitavam pelo espaço-tempo divertindo-se com a maresia das horas. Não havia motivo para preocupações infundadas ou cobranças desnecessárias. Eram apenas eles. Desfrutavam um do outro em sua essência mais pura.

Ele voltou. Seu olhar sustentava a mesma ternura que ela experimentara ao despertar. Calmamente, ele a sustentou em um abraço acolhedor e aconchegante. Enquanto seus braços contornavam sua cintura, ela sentia o pulsar compassado daquele coração. Aos poucos conhecia sua história, seu DNA, suas cicatrizes e marcas de guerra. Admirava que tendo tudo para endurecer, permaneceu doce, qualidade que buscava disfarçar sob uma fina máscara de marra.

E ela gostava das oportunidades que tinha para desvendar sua essência. E, na despedida, lamentava-se pela chegada da temporada em que a ausência dominaria. Suspirava na tentativa de controlar seus instintos que gritavam pela vontade de garantir a permanência.

E fechava os olhos para poder encontrar de novo os olhos dele a fitarem seu despertar, inundados de ternura e alegria.

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Shake it

Perguntaram a ela: de onde vem essa energia? Você não cansa nunca. Acorda, trabalha, cuida deles, dança. Dança em casa ou na pista. Às vezes faz de casa uma pista. E requebra nas quebradas da vida. Cai. Levanta. Supera e… dança. De onde vem essa energia…?!

Ela diz! Vem do entusiasmo. Entusiasmo de ter outra chance e todas as ferramentas pra tentar. E tentar. Quem não cai? Até presidente cai! 😂

Mas o entusiasmo… o entusiasmo faz a gente dar aquele turntable. Manja?

O entusiasmo gera o sorriso. O sorriso atrai aquelas energias boas. E começa o ciclo… quem é que para de dançar com AQUELA música boa? Aquela que faz você voltar correndo pro meio da pista, mesmo depois de ter pago a conta e estar prestes a sair.

A vida é esse entusiasmo. E ele não te deixa cansar, nem desistir. Jamais! O entusiasmo dela vinha do seu deus interno – tipo namastê, saca… o deus que nos move. Esse que habita nosso coração.

Sem trocadilhos! “Entusiasmo” vem do latim, enthusiasmus, que é, por sua vez derivado do grego enthousiasmos: ,e significa “Inspiração divina”. A palavra grega faz parte do verbo enthousiazein: “estar inspirado por um deus”.

E esse Deus que a inspira é provedor de uma energia capaz de transmutar toda luz escura em plenitude, alegria e paz. E a permite dançar! Dançar e dançar na certeza de que essa liberdade é o que vale. A liberdade de dançar a música, remixando melodias tristes e envolvendo o mundo com aquele imenso sorriso emoldurado pelo batom vermelho.

Baby, now (shake it up, baby)

Twist and shout (twist and shout)

Come on, come on, come on, come on, baby, now (come on, baby)

Come on and work it on out (work it on out)

Beattles

Recomeço


Tantas eram as falsas promessas que haviam dito ao seu coração… Tantos desejos eternos que se provaram momentâneos, tantas juras românticas perdidas aos poucos no mar etéreo da rotina… 

Cada lágrima corrida levava consigo um pouco da dor e da capacidade de acreditar. Tivera tanto medo da solidão… E agora esta era a única coisa em que se propunha acreditar. A solidão era sincera e verdadeira na medida em que lhe apresentava um reflexo dela mesma. A solidão não a abandonaria, jamais mentiria, não trairia nem a confundiria.

Mergulhada ali, no mar escuro e profundo da sua alma, oscilava entre esperança e força, tristeza e agonia, fraqueza e desconfiança, fé e perseverança, entre a dor e o amor.
Lutava para apagar as lágrimas, lutava em busca do alívio que a permitiria respirar, lutava em busca do equilíbrio que a permitiria continuar. 

De que interessa ao mundo sua dor? Há tanto sofrimento impetrado por problemas profundos e sérios corroendo a humanidade que sentia-se mal por haver deixado rolarem em seu rosto as cintilantes gotas doloridas da sua existência.
Descobriu na solidão um refúgio nada plácido, porém seguro. O mergulho em sua própria imensidão poupava-lhe qualquer necessidade de interação. 

Ainda gostava de observar e mantinha a pureza de se sentir verdadeiramente grata pelas conquistas de conhecidos próximos e distantes. Mas perdera o interesse por compartilhar. Seus julgamentos lhe bastavam. Seus próprios dedos em riste lhe bastavam. Sua própria incapacidade de fazer com que tudo funcionasse à maneira como crescera sonhando bastava-lhe. E uma vez isso lhe bastasse deveria poupar naqueles que a rodeavam qualquer interação com aquele mar profundo, escuro e oculto de desejos perdidos e frustrações empilhadas. Os ferros e engrenagens retorcidos de suas angústias serviriam de alicerce para a carapaça de uma existência plena.

Deveria poupar aos outros e a si mesma da interação com falsas realidades criadas com objetivo único de angariar cliques pouco interessados em instantes congelados de uma falsa felicidade. 

E assim iniciou sua nova jornada, mergulhada no gélido e sombrio mundo interior de castelos desolados e corações partidos. Passos insertos impulsionavam-na, titubeastes na certeza de que nada mais seria como antes.

Minha razão está fundamentada no que eu sinto e percebo. Minha razão viaja acompanhada da emoção, sendo, muitas vezes, guiada mais por informações “subjetivas” do que “objetivas”. E quem disse que só a objetividade deve ter valor para uma razão bem construída? Entre o ser algo e parecer ser algo muitas vezes há um abismo incalculável. Sendo assim, não estaria errado dizer que minha razão está fundamentada no status quo, sendo que o estado atual das coisas está, obrigatoriamente, relacionado ao estado passado das coisas e intimamente ligado a fatores subjetivos, além dos objetivos… Olhares, nuances e gestos podem ser absorvidos como fatores objetivos. Uma mudança de comportamento, uma alteração boba em um gesto cotidiano, um tremor na voz, um gaguejar ou uma hesitação podem trazer muito mais informação ao interlocutor atento que a dureza das palavras pronunciadas. Nesses momentos, cruzam-se as informações do ser com o parecer ser. E o desafio é descobrir se não se é o que parece ou não se parece o que se é.
Sim, é possível obter muito mais informação no não dito do que no dito. Assim, aceito que conceituação de objetividade (ou subjetividade) das coisas depende mais da experiência, do olhar, da sensibilidade e acurácia de quem assiste, diferentemente do que indivíduos extremamente racionais podem imaginar. Sim, o que é subjetivo para uns, pode ser concreto e objetivo para outros. Para quem mantém todos os sentidos alertas, as cenas cotidiana certamente trazem muito mais informações do que quem busca abrigar-se detrás da dureza de algumas objetividades.

Dor

A dor, aquela que fere, que maltrata, que mata e angustia a alma, que nos faz perder a visão da vida e de sobrevida, só existe e impera e realiza todas as suas crueldades infames enquanto não aceitamos que a coisas são como são. Em nossa condição humana – em que se tem um ideal, se busca o melhor, se luta pelo crescimento pessoal, emocional, espiritual – resistimos e repudiamos, queremos exorcizar tudo aquilo que vai contra nossos planos, sonhos e projeções idealizadas de um futuro aconchegante e belo.

Quando a vida nos mostra que os contos de fada são apenas licenças poéticas, sentimos essa dor tão profunda e intensa, capaz de nos varrer a alma e macular o coração. Parece estranho dizer que a chegada e a partida dessa dor dependam exclusivamente de nós. Entretanto, vale refletir que ela só existe porque custamos a aceitar a realidade – que nada tem de cruel ou maligna, sendo produto exclusivo da maneira como conduzimos as coisas – e lutamos contra o que a vida nos impõe.

Aceitar, simplesmente aceitar, é a libertação da dor. Aceitar que erramos. Que os outros são passíveis de erros, enganos e equívocos, que não podemos controlar tudo, que nada se conduz exclusivamente de acordo com a nossa vontade. Ao aceitar, encontramos a chave que nos liberta da prisão da dor. E aquilo que parecia tão assombroso diminui. Algumas vezes até desaparecer. Outras vezes fica ali, latente, mas tão diminuta, que nos serve apenas de alerta para os passos que conduziremos dali por diante.

Não é preciso temer a dor. Ela virá para ensinar a viver e a sobreviver. Aprender a aceitar isso é a paz necessária para continuar.

Chuva

Havia acabado de tomar um banho, desses que só se toma, mesmo, para buscar relaxar. Não esses relaxamentos da tensão comum do dia-a-dia. Esse que se busca como fuga, que permite respirar quão fundo se queira para conter as lágrimas, esvaziar a mente, desconcentrar do veneno mental que, às vezes, os indivíduos impõem a si mesmos.

Tinha, então, recém saído de um banho desses. Secou-se e enrolou-se na toalha felpuda; lançando, imediatamente, mão de outra para acomodar em seus longos cabelos negros. Mirou-se no espelho, passando a mão pela região dos olhos, como que na tentativa de essa suave massagem eliminar-lhe as rugas que começavam a surgir. E desabou. Sentia-se fraca e inútil por não ser forte o suficiente para conseguir. Todos os dias tentava. Todos os dias humilhava-se perante si mesma por não conseguir. E ao desabar de joelhos no chão do banheiro, desabou, com ela, novamente, aquele pranto doído, desesperado e carregado de mágoa que a acompanhava há algum tempo.

“Não posso mais com isso”, repetia para si mesma. Estava tão consciente de que não conseguiria mais suportar do quanto estava de que queria seguir adiante, livre e feliz. Mas a visão estava turva, os sentimentos misturados. Razão e emoção haviam brigado, recusavam-se a cooperar uma com a outra… Enquanto isso, definhava na indefinição sobre como resolver seus problemas.

Apenas ela sabia da luta e do esforço que se impunha, diariamente, para por fim à tortura psicológica a que se sujeitava. Mas, quando percebia, novamente flagelava-se cobrando respostas que não dependiam apenas de si. A mágoa acumulada criava um ciclo de questionamentos sem respostas, exigindo certezas que não podem ser garantidas por nada, nem por ninguém. E este ciclo gerava apenas mais incertezas, mágoas e tristezas. Como um veneno ministrado lentamente em suas veias.

E, ao desabar, sentiu que, enfim, perdia todas as forças. O peso era grande demais. A mágoa era grande demais. A cobrança era grande demais. As coisas tinham que funcionar bem. Precisavam ficar bem. Ela não sabia como enfrentar mais um fracasso,outra tentativa tola de fazer dar certo. Havia passado por cima de coisas que significavam muito. Havia atropelado sentimentos que lutavam para manifestar. Havia calado em lugar de dar voz e vazão a todas aquelas coisas que ficaram presas na garganta para não ferir-se e para não ferir a outréns.

E então desabou, cansada de tanta luta vã. Tanta luta que refletia sua desesperada vontade de fazer funcionar. E aceitar que não era como queria  tolhia-lhe parte da alma. Aceitar seus equívocos acentuava a decepção que sentia em relação ela. Não se sentia perfeita. Mas desejava, ardentemente, que aquelas escolhas a levassem ao paraíso. Acabou conhecendo o inferno que havia dentro dela própria. Viajou aos melhores e aos piores lugares a que seu coração poderia levá-la. E caiu. Foi até o fundo do poço de sua própria alma. Estava ali, presa, envolta por sentimentos com os quais jamais convivera. E já não sabia mais como fazer para sair desse abismo. Lutava com todas as forças. Mas era como se a cada dia morresse na praia, na tentativa de não afogar-se no mar que ela mesma representava para si.

E embora fizesse uma noite iluminada e quente, ela era só escuridão e frio. E ficou ali, desabada, entregue, estática. Banhada em suas lágrimas, já não sentia mais forças para levantar e seguir adiante. Restava implorar para que todo aquele pranto acabasse. Suplicar para que toda aquela dor chegasse logo ao fim. Sempre crera que haviam arco-íris após as tempestades. Mas aquele furacão parecia estar apenas começando.

O que morreu em mim, representa o que sou. Cada morte se transformou em vida. Algumas vezes Severina. Algumas vezes Baleia. Algumas vezes Gabriela… tantas outras mortes quantas outras vidas. Em cada morte, um recomeço. Umas vezes tiro certo. Outras um tropeço.

Umas foram mortes morridas. Outras foram mortes matadas. Todas foram mortes que transformaram vidas. Transformaram-se em minhas mortes-vidas.

Da morte da ignorância nasceu a sabedoria. Da morte da angústia nasceu a paz. Da morte da pressa nasceu a paciência. Da morte da tristeza nasceu a felicidade. Da morte do egoísmo nasceu a cumplicidade. Da morte da inocência nasceu a perspicácia. Da morte da mentira nasceu a verdade. Da morte da traição nasceu o respeito. Da morte do desespero nasceu a calma.

Morreu a criança, que viu-se atropelar pela vida. Cedo abraçou a sabedoria dos velhos. Deles tirou os valores da alma, a responsabilidade de ser, a sinceridade no existir, a fantasia de viver.

Morreu a menina, que outra criança em seu ventre abrigou. Na inocência gerou vida, que muitas coisas mudou. Dela nasceu a mãe, que tantos choros acalentou.

Morreram amores, nasceram dores. Em cada morte, uma nova vida, que renascia das cinzas sem quaisquer pudores. Falsos tabus, mentiras vãs, esperanças frias, cada passo um dia; cada tropeço uma via. Transformaram-lhe em personagens, todos reais, cada um m sua fase.

Morreram dores, nasceram amores. Cada amor uma paixão, carregada de revelação. Do que veio pelas letras, transformou em profissão. De cada frustração sentida, o suspiro por uma nova vida.

O que morreu em mim, me transformou no que sou. Santa e louca. Recato e despudor. Sinceridade e delicadeza. Hostilidade e sutileza. São todas qualidades ou todos defeitos. Depende da morte sofrida, no início de uma nova investida.

O que em mim morreu, me transformou em algo novo que brotou. O que em mim viveu me transformou, até onde pôde; e então findou.

O que morreu em mim, representa o que sou. Cada morte se transformou em vida. Algumas vezes Severina. Tantas outras mortes quantas outras vidas.